A Epifania das Nossas Integrações

Durante muito tempo, cultivei o hábito de escrever sobre o que eu experienciava. Isso me ajudou a organizar as ideias, à medida que compreendia, energeticamente, como eu interagia com fatos e pessoas. De alguns anos para cá, senti que as palavras não estavam funcionando mais; como se existisse uma limitação nessa forma de expressão. Daí comecei a fazer mais pinturas e deixei os textos de lado. Pintura em tela, em tecido, em porcelana, na parede... Isso ocorreu no mesmo período em que dei um tempo das redes sociais, de todas. Passei a filtrar tudo o que vinha do externo, não queria me envolver com questões mundanas, com nada que me tirasse do que eu achava que fosse um “espaço seguro”. Eu temia ser contaminado pelo mundo. Só que eu sou um artista, ou melhor, sou um artista também. E o artista dentro de mim começou a sentir o peso do exílio. Mesmo que a minha comunicação não seja apenas por palavras ou por pinturas, eu fui sentindo que eu não precisaria continuar me protegendo, seja lá do que fosse.

Uma das coisas que ressignifiquei foi o “espaço seguro”. O espaço seguro é um termo muito usado por Shaumbra, mas eu não sentia que vivenciava isso plenamente, pelo fato de que havia mais um esforço de autoproteção do que uma atitude de soberania da minha parte. Acho que espaço seguro é um dos conceitos de Nova Energia mais propenso a makyo. Vou fazer uma analogia aqui usando o Espiritismo, a doutrina de Kardec. O espiritismo fala que “fora da caridade não há salvação” e a expressão tem uma força para essa doutrina que desencadeia uma série de possíveis responsabilidades para quem nela crê. No caso do Shaumbra, manter o próprio espaço seguro pode significar se manter íntegro diante de interferências mundanas, como do “vírus das energias sexuais”, por exemplo. Mas será que precisamos lidar com questões como espaço seguro ou mesmo o “vírus” de uma forma doutrinária, como o espírita lida com a caridade, por exemplo? 

Para Shaumbra, shoud, workshops e estudos avançados não fazem parte de nenhum tipo de doutrina. Toquei nesse assunto de doutrina, porque eu já experimentei lidar com a Nova Energia como se fosse uma doutrina, mesmo que eu não tivesse consciência disso. E, todas as vezes que eu agi dessa forma, eu quis doutrinar o meu humano. Quis dizer a ele como se comporta um Shaumbra. Mas como se comporta um Shaumbra? A-ham... Shaumbra não é encaixável ou padronizável. Humanos são. Shaumbra é um aspecto para ir além desse humano, mas integrando esse humano e não o rejeitando ou querendo melhorá-lo. Parece paradoxal, mas é muito mais simples do que parece. Ninguém vira Mestre de si mesmo sentindo culpa ou vergonha de como está ou como se sente. Claro que há de se observar isso de uma forma ampla. Aceitar a própria humanidade não é deixar de pintar o cabelo, de ir à academia ou não usar creme antirrugas. Se você não faz nada disso normalmente, tudo bem também, porque não se trata de nada externo. Aceitar o humano é integração de tudo que se É.

Outra questão é a de ter causas ou a de tomar partido. Não preciso ter lado em relação à coisa alguma. Mas se eu ainda acredito que é importante ter um lado? Humm, onde fica o meu “não importa” nesse caso? Na minha experiência, eu sinto que nada é assim tão absoluto para quem ainda vive em um mundo dual. Por isso costumo sentir as camadas de uma questão, seja ela qual for. O mundo e os humanos criam a sua realidade a partir do que acreditam. Não é diferente em relação a minha própria vida, a vida da comunidade ou a do país. Nesse sentido, o fato de eu querer parecer imparcial ou isento sobre algumas questões de cunho coletivo, por exemplo, ideologia, racismo, homofobia e por aí vai, não quer, exatamente, dizer que eu não tenha um lado. Mas, em alguma camada, pode revelar muito do que queira esconder dos outros e/ou de mim mesmo.

Tela Clarice Lispector por L.H. Rico
Finalizando, dia desses encontrei, na internet uma foto da escritora Clarice Lispector. Não sou um conhecedor profundo da obra dela, mas me inspirei a pintar seu retrato. Em consequência disso, adentrei um pouco em uma de uma de suas personagens, a Macabéa. Além da coincidência de a personagem ser minha conterrânea, também algo de muito humano em sua trajetória me tocou. Sua vida humana cessa após uma vidente dizer que ela teria um futuro feliz. A descrição dos fatos ditos pela vidente faz com que ela enxergue como a vida dela foi até aquele dia “infeliz” (aspas minhas). Aquela epifania causa tamanha reação em Macabéa que, saindo da consulta, é atropelada e morre.

Nossas integrações nem sempre são como uma súbita sensação de compreensão da essência de algo, mas não deixa de ser uma espécie de epifania. A cada visita do dragão, ele cospe o fogo da sabedoria e queima alguma parte da gente que já não serve para o que nos tornamos. Pode ser que a gente tema a visita do dragão por medo que esse humano se vá subitamente, com todos os makyos que ele acredite que o prenda à Terra.


L.H.

(Tela em acrílico: "Clarice Lispector" - por L.H.)

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