Severina


Eu vejo em toda a parte mensagens sobre felicidade e positividade. Parece que esse tipo de preceito tem aumentado muito à proporção que os “dramas” aumentam nos noticiários e fora dele. 

Não quero filosofar ou divagar sobre se isso é inerente ou não a todo ser humano ou coisa do tipo, mas lembrar duma experiência que tive com uma pessoa que conheci em 2001, quando fiz um trabalho voluntário com pacientes com câncer e leucemia. Muitas vezes, fazia esse trabalho diretamente em hospitais. Acompanhei pessoas que lidavam com o tratamento de formas diferentes. Independente de serem crianças ou adultos, presenciei as dores e as alegrias nesse processo. Mas uma dessas pessoas, em especial, me marcou. Era uma mulher dos seus 40 e poucos anos. Vou chamá-la de Severina. 

Severina era casada, sem filhos e de uma cidade do interior de Alagoas. Apesar da origem humilde, estudou e era professora primária. Todas as vezes em que eu ou qualquer outro voluntário chegava na enfermaria onde estava, ela sorria. Aquele sorriso amplo e espontâneo que me desconcertava por eu ter reclamado minutos antes do trânsito, do calor, do preço do almoço. Severina contagiava não pela sua alegria, mas pela espontaneidade com que encarava a situação em que vivia.

Nos sábados à tarde, seu marido a visitava. Um pouco antes de ele chegar, presenciei Severina se enfeitando e passando o seu melhor batom, apesar da quimioterapia e do desconforto da doença. E eu me perguntava: Como ela consegue estar sempre tão “feliz”? Ao contrário do que todos imaginariam, ela sabia da leucemia e das suas consequências. Mas, até o dia da sua partida, mesmo com a dor e a tristeza de seus parentes, Severina continuava “cheia de vida”. 

Passei muito tempo sem entender por que Severina sempre pareceu tão serena e tranquila, apesar de tudo por que passou. Como muitos podiam achar, não era ignorância, alienação ou resignação. Ela apenas não dava a mínima a coisas como felicidade ou positividade. Severina sabia, no seu íntimo, que estava aqui de passagem, por isso não levou nem a doença (nem ela mesma) tão a sério, a ponto de perder a própria espontaneidade. 

Grato pela convivência, Mestra Severina!


(Luiz Henrique)


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