Eu Sou em Nós

2001

Eu e L.H. nos conhecemos em Maceió, Alagoas, em agosto de 2001. Foi um encontro tão simples e familiar que, após dois meses e dois dias, nos casamos.

O nosso jeito de viver é "sem agendas", ou seja, não planejamos ou fazemos conta do que escolhemos vivenciar. Simplesmente fazemos, compartilhando sentimentos e ideias. E foi assim que nos casamos. Não fizemos cerimônia, nem tivemos formalidades. A nossa família ficou sabendo na véspera e só depois do casamento que houve as apresentações familiares.

Vivemos até 2008 como todo o casal, em cumplicidade, amor, mas com muitos conflitos também. E a questão maior era que nós não estávamos conosco mesmos em primeiro lugar. A busca pela satisfação no outro, com a expectativa em relação ao outro era a base do nosso relacionamento. Mas, dentro de cada um de nós, havia o desejo de mudar e de nos expandir. Estava ainda inconsciente. No entanto, havia um "algo a mais" a ser explorado por nós como indivíduos.

No final de 2004, começamos a ler juntos as mensagens da Nova Energia (as mensagens do Círculo Carmesim). Sempre tivemos ideias muito parecidas em relação à maneira de perceber as coisas físicas e não físicas. Acreditamos e sentimos que há algo além do que os nossos olhos podem enxergar. E, a cada leitura destas mensagens, nos transformávamos sem perceber. Até que um dia, quando L.H. estava passando pela experiência de morte da sua mãe, sentimos vontade de mudar literalmente. Morávamos em Maceió, mas sempre tive vontade de voltar à Bahia, onde nasci e cresci. E escolhemos nos mudar para Salvador. Foi impressionante como tudo fluiu para que isso acontecesse. Até a transferência do trabalho de L.H. foi rápida, o que poderia ser como ganhar na loteria. Teria que haver alguém em Salvador que quisesse morar em Maceió, para que houvesse a permuta. No primeiro telefonema dado para a sede em Salvador do Instituto em ele trabalhava, já encontrou uma pessoa para permuta! Pouco tempo depois, estávamos em Salvador. Eu fui primeiro, pois L.H. precisava ainda resolver alguns detalhes do seu trabalho. Ficaríamos inicialmente na casa da minha mãe.

Quando eu cheguei a Salvador, percebi que eu havia mudado. Algo em mim havia mudado. E algo em L.H. havia mudado. Passamos por tantas experiências juntos e a morte da mãe de L.H., seguida da morte do pai, foi uma experiência intensa principalmente para ele. Naquele momento, eu me olhei no espelho. E me vi como se fosse pela primeira vez. A vida em casal, quando fazemos os papéis de marido e esposa, com muitas crenças e condições embutidas, faz com que não nos vejamos mais como o "eu". O "nós" prevalece em grande parte das vezes. Com a mudança, eu pude me ver como "eu". E me senti bem, apesar de certa estranheza. Quando L.H. chegou em Salvador, já não éramos mais os mesmos. Ele veio diferente e eu estava diferente. Não há mesmo como explicar ou como delimitar quando começou e o que aconteceu. Simplesmente aconteceu. Assim como nos conhecemos e nos casamos. Sem agendas ou algo planejado.

Eu havia conhecido um casal de amigos que moravam na Europa e que também liam as mensagens do Círculo Carmesim. Nós nos tornamos amigos rapidamente. Trocávamos ideias sobre a Nova Energia, compartilhando nossas experiências e sentimentos. Eles apresentavam os cursos do Círculo Carmesim, dos quais eu tinha vontade de participar. Foi então que fluiu a possibilidade para eu viajar e participar dos cursos que os meus amigos apresentavam. E eu também poderia traduzir as mensagens destes cursos, pois a linguagem original é em inglês. Poderia trabalhar com isso e também fazer um curso de formação de professores para apresentar estes cursos também. Eu ainda exercia minha profissão como Odontóloga, mas já questionava por que as pessoas se esquecem de serem autônomas para escolherem se cuidar de uma forma muito mais ampla e simples. E, com as transformações interiores pelas quais eu passava, liberei a minha profissão.

Quando L.H. soube que eu iria à Europa, não pôde compreender, naquele momento, a minha escolha de viajar. Estávamos estranhos e estremecidos. E, naturalmente, nos afastamos. Era o momento para a nossa intensa transformação sozinhos; a nossa expansão interior, olhando através dos nossos próprios espelhos - nos olhos do nosso "eu". E assim partimos à nossa própria experiência.

L.H. ficou sozinho numa cidade nova, num setor de trabalho novo, numa casa nova. Preferiu não ficar na casa da minha mãe e passou a morar em uma suíte de um apartamento que dividiu com pessoas que nunca tinha visto antes. Muitos foram os seus momentos de solidão, mas, na verdade, ele estava em íntima companhia consigo mesmo. Era ele e ele. Ninguém mais. E, separadamente, continuávamos a ler as mensagens da Nova Energia que sempre nos inspiravam mais e mais transformação.

Na Europa, eu participei de cursos do Círculo Carmesim, como a Escola DreamWalker de Morte e a Escola de Energias Sexuais. Experiências e sentimentos indescritíveis... Voltei ao Brasil e continuei trabalhando nas traduções das mensagens do Círculo Carmesim e, pouco tempo depois, retornei à Europa para participar do curso de formação de professores do Círculo Carmesim.

Um dia, L.H. sentiu vontade de ligar para mim. E nos encontramos depois de nove meses separados. Não precisamos conversar muito. Como sempre, a simplicidade e a fluidez embalaram nossos sentimentos. E, assim, voltamos a ficar juntos. Mas, agora, somos outras pessoas; estamos renovados. Celebramos o nosso retorno, mas sempre preservando a nossa individualidade. Hoje é como se estivéssemos em nosso segundo casamento. Não que precise se separar para se renovar. Mas o momento em que estávamos separados nos ajudou a nos ver como indivíduos, seres únicos e autônomos.

Eu e L.H. passamos pela experiência da Escola de Energias Sexuais. Foi e está sendo um presente valioso para cada um de nós perceber como funcionam as relações de abuso e de vitimização e compreender e vivenciar o amor-próprio. E este entendimento também foi fundamental para nós também como casal. Nossa relação está se transformando a cada momento com muito amor. O nosso "eu" compartilha e brinda com o "nós" por livre e espontânea vontade. E estamos vivenciando realmente o que se diz: "quando nos amamos primeiro, podemos verdadeira e incondicionalmente amar o outro". 

No final de 2012, L.H. tomou uma das maiores decisões da sua vida: liberar o seu emprego público federal. E assim fez como reflexo de sua expansão, tendo de mim total apoio. Olhando pra trás, me vendo no momento em que L.H. me ligou do trabalho dizendo que era o momento de liberá-lo, não fazia ideia de como essa escolha mudaria a nossa vida. Mas, como sempre, nossas decisões e atitudes são feitas sem muitas análises, como se algo dentro de nós já soubesse o melhor a fazer.

Passamos a nos dedicar exclusivamente às nossas criações relacionadas com a Nova Energia. Criamos livros, curso, fizemos arte. Tínhamos todo o tempo do mundo para nós mesmos e também foi um período em que ficamos muito juntos, todos os dias, trocando ideias, criando juntos, compartilhando sabedoria e impressões. Também foi um período desafiante, pois era como se tivéssemos liberado tanta coisa, que parecia que estávamos sem nada. E também com o Saber em franca expansão. 

No início de 2015, sentimos que havíamos chegado a um “Ponto de Separação”, onde as energias começam a se mover de forma diferente do habitual, quando novos potenciais “borbulham” ao nosso redor, nos pedindo para tomar novas atitudes. E, como já somos peritos em “farejar” a chegada de novos ares, encaramos mais essa onda. L.H. sentiu vontade de voltar a morar em Maceió. Em um dia, ligou para sua família e, no outro, partiu. Na verdade, foi uma decisão desafiante, pois estávamos vivendo esses últimos anos tão juntos. Mas o Saber que nos move também estava ali, em cada momento, sussurrando em nosso ouvido: “Está tudo bem!”. E a cena final onde desfecha essa “fase” é L.H. se despedindo de mim e dizendo: “Está na hora de nos encararmos de frente!”. E assim partiu.

Passamos por um breve período sem nos comunicar, quando estávamos nos reorganizando individualmente. Mas logo passamos a nos falar via email. Nesse período de mudanças, também trouxe de volta, para mais perto, meu “aspecto dentista”, mas agora, bem mais consciente, leve, renovado. E voltei a trabalhar na minha antiga profissão.

L.H. mora em Maceió e eu em Salvador neste momento. Cada vez que nos encontramos é como se não fizesse muito tempo em que estivemos longe um do outro, apesar da saudade que sentimos. É porque somos tão familiares um com o outro... Não estranhamos o nosso cheiro, a presença do outro compartilhando a cama, depois de certo tempo estando sós. Ficamos à vontade um com outro e também muito felizes por poder compartilhar pessoalmente tantas experiências que tivemos ao longo do tempo “afastados”.

Para uma pessoa de fora ou com muitas referências convencionais, não é muito fácil entender nosso relacionamento. Talvez seja porque também não somos, individualmente, “pessoas fáceis”. Temos nosso próprio jeito de agir, de estar no mundo, com as pessoas. Às vezes, somos resilientes demais, obstinados demais na nossa própria expansão. Mas já sabemos também rir de nós mesmos e ter compaixão pelos nossos aspectos. Somos Mestres de nós mesmos.

2017

Inspirados nas nossas experiências de expansão, criamos o VIDASHAUMBRA para compartilhar também com quem escolhe celebrar e experienciar a Vida.


(Aline Bitencourt)

*As imagens contidas aqui são edições de telas de LH, registros de eventos ou do nosso cotidiano, exceto as relacionadas ao Crimson Circle.